"Você algum dia soube o que era voar? Digo, não ir além das nuvens, executar um vôo rasante com o intento em rasgar o céu camuflado detrás d’um cinto de segurança, mas aquelas asas que não são férreas, pois, se for observar, o avião também aprisiona. Ser livre é não ter corrente algemando o tornozelo, as mãos, os olhos mortos. Flutuar não é o mesmo que voar, menino. Para flutuar basta emergir a superfície e desfrutar das palmeiras, as flores, as formigas em forma de gente na terra, os prédios altos que não alcançam as estrelas, apenas em distância, através de uma vidraça que espelha o horizonte externo; sem morar no palco da dor, abrindo os braços e se entregando para o abismo sem chão, as águas oceânicas, o Atlântico das almas oprimidas. Não se voa sem ser pássaro ou borboleta, corvo ou águia, poeta ou bailarina. Vivo um século inteiro abaixo da noite, nas margens da luz, como se temesse a cegueira diante dela. Tudo o que é bonito me dá a impressão de que, se eu me aproximar, irá tornar-se fosco e sem brilho. Tudo que toco tem pele fria, membrana oblíqua, como se minhas mãos trouxessem o negro e o túmulo. E nunca foi beijo, pois os meus lábios não encontraram a tua rua. Nunca foi pintura, afinal, todas as cores fugiram de mim como o demônio foge constante da cruz. Você algum dia soube o que era amar? Quero dizer, não essa paixão supérflua que maltrata a alma, esmalta de vermelho rubro o coração. Não essa sentença egoísta que exige um horário para o início e o fim, amor que vem plural, e se vai com o cheiro a dois impregnado em cada canto, folha, orvalho e sombra nos dias póstumos ao nós. De todo o caos, todo o inverno rasteiro que me levou ao chão enlameado, o que provou a ausência da falta foi a ânsia em levantar de novo. Não levantar para permanecer em pé, entretanto, cair outra vez. Eu quero cair, homem. Está me ouvindo? Eu quero cair, a queda de noventa metros de altura, os sete palmos abaixo do chão, os cem anos de sacrifício, amor e solidão. Quero navegar nos mares da tua volúpia, ser-te inferno e paraíso, mas ser-te. Em qualquer hora, de qualquer forma. Para cobrir a tua boca com lágrimas cruas e sorrisos que nascem d’alma e ecoam a voz da alegria. Quero ser feliz em ser só – só tua; presa em liberdade, voando de jardim em jardim e chovendo de gota em gota. Você é um pássaro de papel, desenhado em cartolina sem tinta, que não sabe voar e tampouco amar; névoa cinzenta que disfarça como ninguém. Seu mistério me encanta, homem. Faço-te um sonhador, hei de cobrir as tuas costas e as tuas palavras com as minhas asas alforriadas das algemas, para que seu mergulho seja fundo, teu amor seja febril no gelo, teu violão incorpore a sábia letra de quem salva a mulher de olhos frios da infinita descrença. Eu grito quando lhe peço desculpas. Fico em silêncio quando os botões verde jade marejam. Mas não sou pássaro de papel, tenho penas e um canto arrogante, querendo despertar o vagabundo que jaz na órbita dos homens lúcidos. Vem ser gigante, poeta, dançarino e louco vadio, sem chapéu, sem magia. Vem ser um desses amores intrépidos no dissabor da vivência crua, nua, solitária. Manchei o teu nome na cartolina sem tinta, com batom vermelho e desejo. Então vem…Voar.Amar.Até que o nunca pare de nos contradizer, ou a morte nos permita envelhecer.
Camila M. Paiffer" — Pássaro de papel, cartolina e tinta,
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